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Os segredos da migração da baleia-franca-austral, uma espécie em recuperação

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Em um estudo inédito, formado por uma equipe internacional, foi descoberto onde a baleia-franca-austral que se alimenta em torno da ilha subantártica da Geórgia do Sul, se reproduz durante os meses de inverno. Esse entendimento permitirá melhorar os esforços de conservação para sua recuperação, após anos de caça. Os resultados foram publicados nesta semana (20 de maio de 2020) na revista científica internacional “Journal of Heredity”.

Baleia-franca avistada no Brasil.

As baleias-francas-austrais foram extremamente caçadas por séculos até quase a sua extinção. Nesse estudo, o mais abrangente desse tipo já realizado, 30 pesquisadores de 11 países comparam o DNA de amostras de pele de baleias das ilhas subantárticas Geórgia do Sul, com amostras coletadas no Brasil, Argentina, e África do Sul, que são importantes áreas reprodutivas e de berçário da espécie.

Usando ferramentas moleculares de alta resolução, a equipe de pesquisadores confirmou que a maioria dos animais que visitavam a Geórgia do Sul tinham nascido na América do Sul e não na África do Sul. Segundo a líder da pesquisa, Dra. Emma Carroll da Universidade de Auckland na Nova Zelândia  “Os métodos genéticos são importantes no estabelecimento da conexão entre áreas de reprodução das baleias-francas-austrais (áreas intensamente monitoradas para avaliação da recuperação da população) com as áreas de alimentação, as quais estão sendo e serão afetadas pelas mudanças climáticas. É somente compreendendo esses elos de ligação que podemos entender como as populações das baleias-francas-austrais sobreviverão em um mundo em mudança.”

Colaborando com colegas chilenos, a equipe também analisou pela primeira vez uma amostra de DNA da população de baleias-francas-austrais do Chile-Peru, uma população criticamente ameaçada de extinção. Eles descobriram que as baleias do Chile-Peru são uma mistura genética entre as áreas de reprodução dos oceanos Indo-Pacífico e Atlântico, sugerindo que o litoral do Chile-Peru agiu como um ‘trampolim’ entre essas duas grandes bacias oceânicas.

A ecóloga e autora sênior Dra. Jennifer Jackson do British Antarctic Survey, instituição que liderou o projeto, diz: “Este resultado é uma parte importante do quebra-cabeças para entender a amplitude da distribuição das baleias-francas-austrais. A identificação dos vínculos migratórios das populações de baleias em recuperação é crucial para realizar avaliações precisas sobre como as populações de baleias estão se recuperando, e para entender qual a vulnerabilidade frente às ameaças antropogênicas ao longo de seu ciclo de vida. Houve mortalidades inexplicavelmente altas ​​de filhotes de baleia-franca-austral na região da Península Valdés na Argentina nas últimas duas décadas. Portanto, há muito trabalho a ser feito para proteger essa espécie em toda a área migratória”.

Filhote de baleia-franca saltando, avistada no Brasil.

No Brasil, a mortalidade de baleias-francas-austrais é baixa, porém a espécie foi caçada até o início da década de 1970. Desde então, a espécie vem se recuperando, mas já se sabe que existe uma relação entre o sucesso reprodutivo das baleias-francas-austrais no Brasil e a abundância de alimento na região Antártica. As amostras do Brasil foram coletadas em parceria com pesquisadores do Grupo de Estudos de Mamíferos Aquáticos do Rio Grande do Sul (GEMARS) e do Instituto Australis. Segundo a Dra. Karina Groch, Diretora de Pesquisa do Instituto, os resultados mostram este importante link migratório entre as áreas de ocorrência da espécie e confirma a conexão entre Brasil e Argentina, assim como dados preliminares de estudos genéticos e fotoidentificação já apontavam. Conforme destacado pelo Dr. Paulo Ott, da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, que coordenou as coletas das amostras no Brasil, a compreensão da relação entre as diferentes populações de uma espécie altamente migratória como a baleia-franca-austral somente foi possível devido a existência de uma rede internacional de colaboradores. De acordo com os pesquisadores brasileiros, o próximo passo será aprofundar estes estudos e identificar de forma mais precisa quais as áreas de alimentação das baleias-francas-austrais que nascem no Brasil.

Movimentos de duas baleias-francas-austrais nas Ilhas Geórgia do Sul, usando transmissores de satélite.

A equipe da Dra. Jennifer Jackson também está acompanhando, de forma inédita, os movimentos de duas baleias-francas-austrais nas Ilhas Geórgia do Sul em tempo real usando transmissores de satélite fixados nos indivíduos no último verão.  Uma das baleias monitoradas já está migrando para a costa sul-americana, fornecendo mais evidências dessa conexão migratória entre estas áreas. Siga estas baleias aqui:

https://www.bas.ac.uk/project/south-georgia-right-whale-project/south-georgia-right-whale-project-whale-tracking/

Crédito fotos: Acervo Instituto Australis e Equipe Baleia Franca 2020 – BAS Geórgias do Sul

(release divulgado pela British Antarctic Survey (Athena Dinar, Senior Science Communications Manager email: amdi@bas.ac.uk) e autorizado distribuição entre as instituições parceiras.

Nome do Artigo: Genetic diversity and connectivity of southern right whales (Eubalaena australis) found in the Brazil and Chile-Peru wintering grounds and the South Georgia (Islas Georgias del Sur) feeding ground by Carroll et al., Journal of Heredity (https://doi.org/10.1093/jhered/esaa010).

 

Contato:  Guilherme Comodo, Comunicação Instituto Australis (comunicacao@institutoaustralis.org.br)

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